Autismo · Avaliação
M-CHAT: o que é o teste de autismo da Caderneta da Criança e o que fazer com o resultado
Por Dra. Gisela Alves, psiquiatra da infância e adolescência Publicado em
Na consulta de rotina, a equipe de saúde fez à família uma série de perguntas de "sim" ou "não" sobre o comportamento da criança, e no fim disse que o resultado deu "risco". Ou deu "baixo risco", mas alguma coisa continua incomodando. Este texto explica o que é esse questionário, chamado M-CHAT-R/F, o que ele consegue e o que ele não consegue dizer, e o que fazer depois.
Resposta rápida
Respondido pela família e incluído na Caderneta da Criança, o M-CHAT-R/F serve para triar sinais de autismo entre os 16 e os 30 meses de idade. Ele não faz diagnóstico. Um resultado de risco não confirma autismo, mas quase sempre indica algo no desenvolvimento que merece avaliação. Um resultado de baixo risco não descarta autismo: se a família ou o profissional continuar preocupado, a criança deve ser avaliada mesmo assim.
O que é o M-CHAT-R/F?
Trata-se de uma lista de perguntas criada por pesquisadores dos Estados Unidos para identificar, ainda bem cedo, crianças que precisam de uma avaliação mais detalhada para autismo. A primeira versão, o M-CHAT, foi publicada em 2001 e tinha 23 perguntas [2]. A versão revisada, o M-CHAT-R/F, tem 20 perguntas de sim ou não e foi validada num estudo com mais de 16 mil crianças, em consultas de rotina aos 18 e aos 24 meses [1, 3].
O nome resume como ele funciona. "R" quer dizer revisado. "F" vem de follow-up, que é a entrevista de seguimento: uma segunda etapa em que o profissional retoma as respostas que indicaram risco e faz perguntas adicionais sobre cada uma delas [1, 3]. Existe uma versão em português do Brasil, traduzida e validada por pesquisadores brasileiros [5].
Por que ele aparece na Caderneta da Criança?
Desde a 7ª edição, de 2024, a Caderneta da Criança do Ministério da Saúde traz o M-CHAT-R, com a orientação de usá-lo entre 16 e 30 meses nas consultas de acompanhamento [3]. Desde 2017, uma lei federal já tornava obrigatório, no SUS, aplicar um instrumento de avaliação de risco para o desenvolvimento psíquico em todas as crianças nos primeiros 18 meses de vida [4]. Nos Estados Unidos, a Academia Americana de Pediatria recomenda triagem específica para autismo aos 18 e aos 24 meses, junto com o acompanhamento contínuo do desenvolvimento [6].
O que o questionário pergunta?
As perguntas tratam de comportamentos do dia a dia que costumam aparecer cedo no desenvolvimento da comunicação e da interação. Em linhas gerais, elas abordam [3]:
- se a criança acompanha com o olhar quando um adulto aponta ou olha para alguma coisa;
- se ela aponta para pedir e, principalmente, para mostrar algo interessante, e se traz objetos só para dividir com você;
- se ela responde ao nome, retribui o sorriso, faz contato visual e tenta chamar sua atenção;
- se ela imita gestos, brinca de faz de conta e se interessa por outras crianças;
- se ela olha para o seu rosto diante de uma situação nova e se entende pedidos simples sem gestos;
- alguns pontos sobre movimentos, sensibilidade a barulhos e se a família já se perguntou se a criança escuta bem.
Não reproduzimos as perguntas aqui porque o M-CHAT-R/F é protegido por direito autoral e as autoras pedem que ele não seja republicado sem autorização. A versão oficial em português está na própria Caderneta da Criança [3]. A orientação é responder pensando no comportamento habitual da criança, e não num dia específico.
Como funciona a pontuação?
Cada resposta que indica risco vale 1 ponto, e o total define o próximo passo. Segundo a Caderneta da Criança [3]:
| Pontos | Resultado | Próximo passo |
|---|---|---|
| 0 a 2 | Baixo risco | Se a criança tinha menos de 24 meses, repetir o questionário depois que ela fizer 2 anos |
| 3 a 7 | Risco médio | Fazer a entrevista de seguimento. O teste é considerado positivo se 2 ou mais respostas continuarem indicando risco |
| 8 a 20 | Risco elevado | Encaminhar imediatamente para avaliação diagnóstica e intervenção precoce |
Fonte: Caderneta da Criança, 7ª edição, Ministério da Saúde, 2024 [3]. A Caderneta acrescenta: havendo suspeita da família ou do profissional, a criança deve ser encaminhada para avaliação mesmo com resultado de baixo risco.
A entrevista de seguimento faz diferença. Numa meta-análise com 50 estudos, os resultados ficaram mais precisos quando essa segunda etapa foi usada [7]. É por isso que um "risco médio" não deve parar no questionário.
O M-CHAT deu risco. Meu filho tem autismo?
Não necessariamente. O M-CHAT-R/F é uma porta de entrada para a avaliação, e não o diagnóstico. Uma meta-análise de 2023, com quase 50 mil crianças de 10 países, encontrou que, entre as crianças com resultado positivo, cerca de 58% receberam depois diagnóstico de autismo. Em amostras da população geral, essa proporção foi de cerca de 51% [8]. Os autores recomendam que a conversa com a família leve isso em conta.
Mas há outro lado importante. No estudo que validou o questionário, quase 95% das crianças com resultado positivo após a entrevista de seguimento tinham algum atraso ou alguma questão de desenvolvimento que merecia atenção [1]. Num estudo anterior, com quase 19 mil crianças e a versão original do teste, essa proporção chegou a 98% [9]. Ou seja: um resultado positivo nem sempre é autismo, mas quase sempre vale a avaliação.
Deu baixo risco. Posso ficar tranquilo?
Pode ficar mais tranquilo, mas sem desligar o olhar. Nenhuma triagem identifica todas as crianças autistas.
Num grande estudo feito em consultórios pediátricos dos Estados Unidos, com quase 26 mil crianças acompanhadas por vários anos depois da triagem, a versão anterior do questionário identificou menos de 40% das crianças que depois receberam diagnóstico de autismo. Ele funcionou melhor em crianças um pouco mais velhas e quando foi repetido [10]. Em outros estudos, o desempenho foi melhor: somando 50 deles, uma meta-análise encontrou que o teste aponta, em média, cerca de 83% das crianças autistas [7].
Na prática, três atitudes protegem a criança:
- repetir o questionário depois dos 2 anos quando ele foi feito antes [3, 10];
- continuar observando o desenvolvimento nas consultas de rotina;
- confiar na preocupação da família. Segundo a Caderneta, a suspeita é motivo de encaminhamento mesmo com baixo risco [3].
Se quiser saber o que observar, há um guia sobre os primeiros sinais de autismo, do bebê aos 3 anos.
O M-CHAT é confiável?
É o questionário de triagem para autismo mais usado com crianças pequenas, e as revisões apoiam o seu uso [7, 8]. Mas a precisão varia bastante conforme o lugar e a forma como ele é aplicado. Para entender os números, ajuda conhecer três termos:
- Sensibilidade: entre as crianças autistas, quantas o teste aponta como risco.
- Especificidade: entre as crianças não autistas, quantas o teste deixa corretamente como baixo risco.
- Valor preditivo positivo: entre os resultados de risco, quantas crianças de fato recebem o diagnóstico.
Somando 50 estudos, a sensibilidade média foi de cerca de 83% e a especificidade, de cerca de 94% [7]. Na prática do consultório, os números podem ser menores, como mostrou o estudo americano citado acima [10]. Uma revisão sistemática de 2026 reforça esse quadro: o teste costuma acertar quando dá negativo, mas tem sensibilidade irregular, muitos falsos positivos e funciona pior fora da faixa de 16 a 30 meses [11].
Em quem o teste pode falhar mais
- Meninas, crianças negras e de outros grupos raciais e étnicos, e famílias de baixa renda. No estudo americano, a precisão foi menor nesses grupos. Os autores apontam desigualdades que precisam ser corrigidas [10].
- Crianças nascidas prematuras. Uma revisão sistemática de 2025 encontrou que o M-CHAT identificou cerca de 55% das crianças autistas nesse grupo, com base em apenas dois estudos [12]. Comportamentos ligados à prematuridade podem se confundir com sinais de autismo.
- Crianças fora da idade indicada. O questionário foi feito para 16 a 30 meses [3, 11].
Por isso, a triagem para todas as crianças, mesmo sem nenhuma preocupação, ainda é debatida. A força-tarefa americana USPSTF considerou, em 2016, que não havia evidência suficiente para recomendá-la ou contraindicá-la, e o tema está em revisão [13]. No Brasil, a Caderneta e a lei preveem a triagem nas consultas [3, 4]. As duas posições concordam num ponto: se já existe preocupação, o caminho é avaliar.
O que acontece depois de um resultado positivo?
O próximo passo é a avaliação diagnóstica, feita por profissionais com experiência em desenvolvimento infantil, e que pode envolver mais de uma área. O diagnóstico de autismo é clínico: não existe exame de sangue ou de imagem que o confirme, e ele se baseia na observação da criança e no relato da família [3]. Avaliar a audição também faz parte do caminho, ainda mais quando a fala está atrasada. Não por acaso, o próprio questionário pergunta se a família já desconfiou da audição da criança [3]. Há um artigo sobre isso: atraso da fala significa autismo?
O apoio não precisa esperar o diagnóstico. A Caderneta orienta encaminhar a criança com risco elevado para avaliação e intervenção precoce, e iniciar estratégias de estimulação assim que se percebe a ausência de algum marco do desenvolvimento [3]. No SUS, o caminho começa pela Unidade Básica de Saúde.
Quando procurar avaliação profissional?
Vale marcar uma avaliação
Sem pânico, mas sem adiar por meses, quando:
- o M-CHAT-R deu risco médio e a entrevista de seguimento confirmou o risco;
- o resultado deu baixo risco, mas você continua percebendo diferenças na comunicação ou na interação;
- a criança não alcançou marcos de comunicação esperados para a idade.
Procure avaliação com mais rapidez
Quando:
- o M-CHAT-R deu risco elevado (8 pontos ou mais) [3];
- a criança perdeu palavras, gestos ou interesse pelas pessoas que já tinha;
- há suspeita de que a criança não escuta bem.
Perguntas frequentes
O M-CHAT diagnostica autismo?
Não. Ele é um instrumento de triagem: indica quais crianças precisam de avaliação. A própria Caderneta avisa que um resultado positivo não confirma o diagnóstico [3].
Posso aplicar o M-CHAT sozinho, em casa?
As perguntas são respondidas pela família, mas o questionário foi pensado para ser usado com um profissional, que interpreta o resultado e faz a entrevista de seguimento quando necessário [1, 3]. Responder em casa pode ajudar a organizar suas observações para levar à consulta, mas não substitui essa conversa.
Meu filho fez o M-CHAT com 18 meses e deu baixo risco. Preciso repetir?
A Caderneta orienta repetir depois dos 2 anos quando a primeira aplicação foi antes dos 24 meses [3]. No estudo americano em consultórios, a triagem repetida identificou mais crianças [10].
Meu filho já tem 3 anos. Ainda dá para fazer o M-CHAT?
O questionário foi feito para 16 a 30 meses, e a precisão cai fora dessa faixa [3, 11]. Se houver preocupação depois dessa idade, o caminho é a avaliação com um profissional, e não um teste fora da faixa.
Meu filho nasceu prematuro. O resultado vale do mesmo jeito?
O M-CHAT pode ser usado, mas os poucos estudos disponíveis sugerem que ele identifica uma proporção menor de crianças autistas nascidas prematuras [12]. A observação da família e o acompanhamento de perto pesam ainda mais.
O que é a entrevista de seguimento?
É a segunda etapa do M-CHAT-R/F. O profissional retoma as perguntas que indicaram risco e faz perguntas adicionais sobre cada uma [3]. Os estudos mostram que o teste fica mais preciso quando essa etapa é usada [7].
O que é importante lembrar
- O M-CHAT-R/F é uma triagem para crianças de 16 a 30 meses. Ele não faz diagnóstico.
- Um resultado de risco não confirma autismo, mas quase sempre indica algo no desenvolvimento que merece avaliação.
- Um resultado de baixo risco não descarta autismo. A preocupação da família continua sendo motivo para avaliar.
- O risco médio pede a entrevista de seguimento, e o risco elevado pede encaminhamento logo.
- O apoio ao desenvolvimento não precisa esperar o diagnóstico.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Referências científicas
- Robins DL, Casagrande K, Barton M, Chen CM, Dumont-Mathieu T, Fein D. Validation of the Modified Checklist for Autism in Toddlers, Revised with Follow-Up (M-CHAT-R/F). Pediatrics. 2014;133(1):37–45. DOI: 10.1542/peds.2013-1813. PMID: 24366990.
- Robins DL, Fein D, Barton ML, Green JA. The Modified Checklist for Autism in Toddlers: an initial study investigating the early detection of autism and pervasive developmental disorders. J Autism Dev Disord. 2001;31(2):131–144. DOI: 10.1023/a:1010738829569. PMID: 11450812.
- Brasil. Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Seções "Transtorno do Espectro Autista – TEA" e "M-CHAT-R". Biblioteca Virtual em Saúde.
- Brasil. Lei nº 13.438, de 26 de abril de 2017. Torna obrigatória a adoção pelo SUS de protocolo de avaliação de riscos para o desenvolvimento psíquico das crianças. planalto.gov.br.
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