Autismo · Sinais precoces
Meu filho ainda não fala: atraso da fala significa autismo?
Por Dra. Gisela Alves, psiquiatra da infância e adolescência Publicado em
As outras crianças da creche já pedem "água" e "mais", e o seu filho ainda se comunica quase só apontando ou chorando. Alguém comenta que pode ser autismo, outra pessoa garante que "cada um tem seu tempo". Este texto ajuda a entender o que está em jogo, sem susto e sem adiar o que precisa ser visto.
Resposta rápida
Não. Atraso da fala é comum e pode ter várias causas: uma variação do desenvolvimento, perda auditiva, transtorno do desenvolvimento da linguagem, deficiência intelectual ou autismo, entre outras. Sozinho, ele não indica autismo. O que aproxima a hipótese de autismo é o jeito como a criança se comunica sem palavras (olhar, gestos, apontar para mostrar, responder ao nome, dividir interesses), somado a comportamentos repetitivos. Em qualquer atraso da fala, vale avaliar a audição e não esperar meses para conversar com um profissional.
O que é considerado atraso da fala?
A fala costuma aparecer em etapas, e cada criança percorre essas etapas no seu ritmo. Para saber se há atraso, os profissionais comparam o que a criança faz com marcos que a grande maioria das crianças já alcançou em cada idade. Uma revisão feita para a Academia Americana de Pediatria escolheu justamente marcos que pelo menos 75% das crianças já cumprem na idade indicada [1]:
| Idade | Fala | Compreensão |
|---|---|---|
| 12 meses | Chama os pais de "mamã", "papá" ou outro nome especial; dá tchau | Para por um instante quando ouve "não" |
| 15 meses | Tenta dizer 1 ou 2 palavras além de "mamã" e "papá"; aponta para pedir algo | Olha para um objeto conhecido quando você diz o nome dele |
| 18 meses | Tenta dizer 3 ou mais palavras além de "mamã" e "papá" | Segue um pedido simples sem precisar de gesto ("me dá") |
| 24 meses | Junta 2 palavras ("mais leite") | Aponta figuras de um livro quando você pergunta "cadê o urso?" |
| 30 meses | Fala cerca de 50 palavras; junta palavras com uma ação ("au-au corre") | Segue pedidos de dois passos ("guarda o brinquedo e fecha a porta") |
Fonte: Zubler et al., Pediatrics, 2022 [1]. Seleção de marcos de linguagem; os exemplos entre aspas foram adaptados ao português.
A diretriz britânica NICE dá um exemplo concreto de atraso que merece atenção: ter menos de dez palavras aos 2 anos [2]. Crianças que começam a falar mais tarde que a maioria, sem outra dificuldade aparente, costumam ser chamadas de "falantes tardios".
Fala, linguagem e comunicação não são a mesma coisa
Vale separar três ideias que costumam se misturar. Fala é a produção dos sons e das palavras. Linguagem é o sistema de palavras e regras, e inclui tanto o que a criança diz (linguagem expressiva) quanto o que ela entende (linguagem compreensiva ou receptiva). Comunicação é mais ampla: é a vontade e a capacidade de trocar com o outro, com ou sem palavras, usando olhar, expressões, gestos, sons. Uma criança pode falar pouco e se comunicar muito, e essa diferença é central para pensar em autismo.
Atraso da fala significa autismo?
Não. Uma revisão sobre falantes tardios lembra que o atraso da fala pode ser apenas uma variação do desenvolvimento, mas também pode ser consequência de outras condições, como autismo, deficiência intelectual, perda auditiva ou atraso na compreensão. Por isso a triagem de linguagem entre 18 e 35 meses tem valor: ela ajuda a encontrar as crianças em que o atraso é sinal de outra coisa [3].
No autismo, a avaliação não se apoia na fala, e sim no conjunto: comunicação social e padrões repetitivos de comportamento ou interesses. A diretriz NICE vai além e orienta a não descartar autismo só porque a criança começou a falar na idade esperada [2]. Ou seja: atraso da fala não confirma autismo, e fala no tempo certo não o exclui.
Quais são as causas possíveis de atraso da fala?
- Variação do desenvolvimento (falante tardio). Estudos que acompanharam essas crianças por anos mostram que a maioria alcança resultados de linguagem dentro da média entre 5 e 7 anos. Como grupo, porém, elas tendem a ficar um pouco abaixo dos colegas em vários testes de linguagem até a adolescência [3].
- Perda auditiva. Quem não escuta bem não tem como aprender os sons da língua. A perda pode ser leve ou estar ligada a alterações da orelha média, e por isso merece atenção mesmo em quem passou no Teste da Orelhinha (veja abaixo) [7].
- Transtorno do desenvolvimento da linguagem (TDL, ou DLD na sigla em inglês). É o nome dado, por um consenso internacional de especialistas, à dificuldade de linguagem que atrapalha a vida diária e não se explica por uma condição médica conhecida. Ele pode existir junto com outras condições, como o TDAH [5]. Não é raro: num estudo populacional na Inglaterra, cerca de 7,6% das crianças de 4 a 5 anos tinham esse tipo de dificuldade [6].
- Autismo. Nesse caso, o atraso vem acompanhado de diferenças na comunicação social e de comportamentos repetitivos, como explicado a seguir [2].
- Deficiência intelectual, quando outras áreas do desenvolvimento, além da linguagem, também estão afetadas [3].
- Menos oportunidades de linguagem no dia a dia. A mesma revisão sugere que fatores socioeconômicos podem ganhar peso no atraso de linguagem à medida que as crianças crescem [3]. Isso não é culpa das famílias: fala de acesso a tempo, a recursos e a serviços, e reforça a importância de apoio cedo.
Essas causas não se excluem. Uma criança autista também pode ter perda auditiva, por exemplo. Por isso a avaliação olha para a criança inteira.
O que diferencia um atraso da fala do autismo?
A pergunta mais útil não é "quantas palavras ele fala?", e sim "como ele se comunica quando ainda não tem as palavras?". A diretriz NICE descreve sinais de comunicação e interação que, em conjunto, aproximam a hipótese de autismo na idade pré-escolar [2]:
- responde pouco ou não responde quando é chamado pelo nome, mesmo ouvindo bem;
- usa poucos gestos e expressões para se comunicar. Às vezes leva a mão do adulto até o que quer, em vez de apontar;
- aponta pouco ou não aponta para mostrar algo interessante, e olha pouco para onde o adulto aponta;
- usa pouco o olhar para se comunicar (sem problema de visão);
- divide pouco a alegria e os interesses, imita pouco e brinca pouco de faz de conta;
- tem movimentos ou brincadeiras repetitivas, interesses muito intensos ou grande dificuldade com mudanças.
Dois exemplos ilustrativos · não se referem a pacientes reais
Ana, 2 anos, fala poucas palavras. Mas puxa a mãe pela mão para mostrar o cachorro na janela, olha para ela e ri, aponta para o que quer, imita os gestos da avó e adora brincar de dar comida à boneca. Ela se comunica muito, só que com poucas palavras.
Pedro, 2 anos, também fala poucas palavras. Raramente olha quando é chamado, não aponta para mostrar nada, passa muito tempo girando objetos e se desorganiza quando a rotina muda. Aqui, o que chama a atenção vai além da fala.
Os dois merecem avaliação, inclusive da audição. Mas as perguntas que o profissional vai fazer, e os caminhos de apoio, tendem a ser diferentes.
Nenhum sinal isolado decide. Muitas crianças sem autismo têm um ou outro desses comportamentos em algum momento. E o autismo pode passar despercebido em meninas, em crianças que falam bem e em crianças com deficiência intelectual [2]. Se quiser se aprofundar, há um guia completo sobre os primeiros sinais de autismo, do bebê aos 3 anos.
Meu filho passou no Teste da Orelhinha. Ainda preciso avaliar a audição?
Sim, se houver atraso da fala ou dúvida sobre como ele escuta. As diretrizes do Ministério da Saúde para a triagem auditiva neonatal orientam que, diante de suspeita de perda auditiva (dos pais, do pediatra ou da escola), a criança seja encaminhada para avaliação otorrinolaringológica e audiológica mesmo que tenha passado na triagem ao nascer. O mesmo documento orienta a atenção básica a encaminhar para diagnóstico qualquer criança com desenvolvimento abaixo do esperado [7].
A diretriz NICE também inclui a perda auditiva entre as condições que precisam ser diferenciadas do autismo, e descreve a falta de resposta ao nome como sinal de atenção apenas quando a audição é normal [2]. Na prática: antes de qualquer conclusão, é preciso saber como a criança escuta.
Dá para esperar para ver se ele fala?
É verdade que muitos falantes tardios alcançam os colegas com o tempo [3]. O problema é que, olhando uma criança só, não dá para saber de antemão quem vai alcançar e quem precisa de ajuda. Uma meta-análise que reuniu 20 grupos de estudo, com 2.134 crianças, encontrou três fatores ligados a uma evolução melhor da fala: ter um vocabulário maior na primeira avaliação, entender bem o que é dito e o nível socioeconômico da família. Já ter casos de fala tardia na família e o sexo da criança não ajudaram a prever a evolução [4].
Dois recados práticos saem daí:
- "O pai também falou tarde" não indica que a criança vai alcançar os colegas sozinha: nesse conjunto de estudos, a história familiar não ajudou a prever a evolução [4].
- Quando a criança entende pouco, além de falar pouco, a avaliação ganha ainda mais importância [3, 4].
Os marcos do desenvolvimento usados no acompanhamento infantil foram revisados justamente para desencorajar a postura de "esperar para ver" [1]. Avaliar não é rotular. É descobrir a causa e começar o apoio certo mais cedo.
O que ajuda uma criança que fala pouco?
A boa notícia é que há apoio com evidência a favor. Uma revisão sistemática de 34 estudos sobre intervenções para falantes tardios de 18 a 42 meses encontrou melhora do vocabulário expressivo em 93% dos estudos. Os formatos variaram bastante, e muitos incluíam orientação aos pais [9]. Uma meta-análise de 18 estudos mostrou que intervenções conduzidas pelos próprios pais, com orientação profissional, tiveram efeito positivo tanto na fala quanto na compreensão de crianças de 18 a 60 meses, com e sem deficiência intelectual [8].
Em outras palavras: a família não precisa só esperar a vez na fila. Um fonoaudiólogo pode ensinar estratégias para usar nas brincadeiras e na rotina. No SUS, o caminho começa pela Unidade Básica de Saúde, que pode encaminhar para avaliação auditiva e para os Centros Especializados em Reabilitação (CER) [7].
E as telas?
Uma meta-análise de 42 estudos, com quase 19 mil crianças, encontrou que mais tempo de tela e TV ligada ao fundo estavam associados a linguagem um pouco mais fraca. Já programas educativos e assistir junto com um adulto estavam associados a linguagem melhor, assim como começar a usar telas mais tarde [10]. São associações, e não provam que a tela causa atraso. Ainda assim, os autores concluem que os resultados apoiam recomendações simples: limitar o tempo, escolher bem o conteúdo e, sempre que possível, assistir junto.
Falar duas línguas em casa atrasa a fala?
A diretriz NICE orienta os profissionais a não presumir que um atraso de linguagem se explica só porque a família fala outra língua em casa [2]. E, entre crianças autistas, uma revisão sistemática de 22 publicações concluiu que as pesquisas disponíveis não sustentam a ideia de que o bilinguismo prejudique a linguagem e a comunicação. Os autores ressalvam que muitos estudos deixaram de fora crianças com deficiência intelectual ou necessidades complexas de comunicação [11]. Ou seja: em geral, não é preciso abandonar a língua da família, e um atraso merece avaliação como em qualquer outra criança.
Se for autismo, meu filho vai falar?
Muitas crianças autistas falam, e muitas que demoram a falar desenvolvem a fala mais tarde. Um estudo acompanhou 535 crianças autistas que ainda não formavam frases aos 4 anos. Mais tarde, cerca de 70% passaram a usar frases e 47% chegaram à fala fluente [12]. Os autores encontraram mais chance de progresso nas crianças com melhores habilidades não verbais e menos dificuldade social.
Ao mesmo tempo, uma parte das crianças autistas continua falando muito pouco na idade escolar. Pesquisadoras da área citam uma estimativa em torno de 30% [13]. Isso não significa que elas não tenham o que dizer. A comunicação alternativa e aumentativa (figuras, pranchas, aplicativos, sinais) dá a essas crianças outros caminhos para se expressar. E uma revisão sistemática concluiu que ela não atrapalha o desenvolvimento da fala. A maioria dos estudos mostrou até algum ganho de fala, embora modesto [14].
Quando procurar avaliação profissional?
O primeiro passo costuma ser o pediatra ou a equipe da Unidade Básica de Saúde. Leve anotado o que a criança fala, o que entende e como se comunica, e, se puder, pequenos vídeos do dia a dia.
Vale marcar uma avaliação
Sem pânico, mas sem adiar por meses, quando:
- a criança não alcançou os marcos de fala da tabela para a idade dela;
- aos 2 anos, fala menos de dez palavras;
- fala pouco e parece entender pouco o que é dito;
- além da fala, usa poucos gestos, responde pouco ao nome ou divide pouco seus interesses;
- você, a escola ou outra pessoa próxima percebe que a comunicação não está evoluindo.
Procure avaliação com mais rapidez
Quando:
Se a preocupação continuar depois de ouvir que "cada criança tem seu tempo", é legítimo pedir outra opinião. Procurar ajuda cedo não é exagero.
Perguntas frequentes
Meu filho entende tudo, só não fala. Isso é bom sinal?
Entender bem é, sim, um dos fatores ligados a uma evolução melhor nos falantes tardios [4]. Mesmo assim, vale avaliar: só uma avaliação mostra se a compreensão está mesmo dentro do esperado e se há outros sinais a considerar.
Na família todo mundo falou tarde. Posso esperar?
Ter casos de fala tardia na família não ajudou a prever quem ia alcançar os colegas, segundo uma meta-análise sobre o tema [4]. A decisão de avaliar deve se basear no desenvolvimento da própria criança.
Telas causam atraso da fala?
Os estudos mostram associação entre mais tempo de tela e linguagem um pouco mais fraca, mas isso não prova causa. Assistir junto com um adulto e escolher conteúdo educativo estão associados a resultados melhores [10].
Usar figuras ou aplicativos de comunicação vai fazer meu filho desistir de falar?
Não, segundo as revisões disponíveis. A comunicação alternativa não atrapalhou a fala nos estudos analisados, e muitas crianças tiveram algum ganho de fala, ainda que modesto [14].
Fonoaudiologia ajuda mesmo antes de um diagnóstico?
Sim. Intervenções para falantes tardios, muitas com orientação aos pais, mostraram melhora do vocabulário na grande maioria dos estudos [9], e as intervenções feitas pelos pais com orientação profissional tiveram efeito positivo na linguagem [8].
Falar duas línguas em casa confunde a criança?
As pesquisas não mostram prejuízo do bilinguismo à linguagem de crianças autistas, e um atraso não deve ser atribuído automaticamente à segunda língua [2, 11].
O que é importante lembrar
- Atraso da fala é comum e tem várias causas possíveis. Sozinho, ele não significa autismo.
- O que mais ajuda a pensar em autismo é como a criança se comunica sem palavras: olhar, gestos, apontar para mostrar, responder ao nome, dividir interesses.
- Toda criança com atraso da fala deve ter a audição avaliada, mesmo que tenha passado no Teste da Orelhinha.
- Não dá para prever, olhando uma criança só, quem vai alcançar os colegas. Avaliar cedo não é rotular.
- Há apoio que funciona, inclusive com a participação da família, e comunicação vai além da fala.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Referências científicas
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